quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Para que lado cai a bolinha

Esse texto é o mais perfeito e é uma introdução para um assunto que falarei dentro de alguns dias:

O filme começa com uma camera parada no centro de uma quadra de tênis, bem na altura da rede. Vemos então uma bolinha cruzar a tela em câmera lenta. Depois ela cruza de volta, e cruza de novo, mostrando que o jogo esta em andamento. De repente, a bolinha bate na rede e levanta no ar. A imagem congela. O locutor diz que tudo na vida é uma questão de sorte. Você pode ganhar ou perder. Depende do lado que vai cair a bolinha. É o inicio de "Match Point", um filme de Woody Allen. É uma versão mais sofisticada, mais sensual e mais tragica de um outro filme do cineasta "Crimes e Pecados" , de 1989. Em ambos, a eterna disputa entre a estabilidade e a aventura, entre render-se a  moral ou desafiá-la, o certo e o errado flertando um com o outro e gerando culpa. Onde, afinal, está a felicidade?Certa vez li (não lembro a fonte) que felicidade é a combinação de sorte com escolhas bem feitas. De todas as definições. Essa é a que chegou mais perto do que acredito. Dai o devido crédito as circunstâncias e também aos nossos movimentos. Cinquenta por cento para cada. Um negócio limpo.Em "Crimes e Pecados", Woody Allen inclinava-se para o pragmatismo. Dizia textualmente: somos a soma das nossas decisões. Tudo envolve o nosso lado racional, até mesmo as escolhas afetivas. Casamento acontece por vários motivos, entre eles por serem um ótimo arranjo social- e nem por isso desonesto. E até mesmo a paixão pode ser intencional. No filme, um certo filósofo diz que apaixonamos para corrigir o nosso passado. É uma idéia que pode não passar pela nossa cabeça quando vemos alguém e o coração dispara, mas, secretamente, a intenção já existe: você esta em busca de uma nova chance de acertar, de se reafirmar. Seu coração apenas dá o alerta quando você encontra a pessoa com quem colocar o plano em prática. Em "Match Point", Woody Allen passa a defender o outro lado da rede: a sorte como o definidor do rumo da nossa vida. O acaso como nosso aliado. Se a felicidade depende de nossas escolhas, é da sorte a ultima palavra. Você pode escolher livremente virar a  direita, e não à esquerda, mas é a sorte que determinará quem vai cruzar com você pela calçada, se é um assaltante ou um Chico Buarque. É a bolinha caindo para um lado, ou para o outro.Tanto em "Crimes e pecados" como nesse excelente e impecável "Match Point" fica claro o que todos deveriamos aceitar: nosso controle é parcial. Há quem diga até que não temos controle de nada. Não existe satisfação garantida e tampouco frustração garantida, estamos sempre a mira do imprevisivel. Treinamos, jogamos bem, jogamos mal. Seguimos as regras, ás vezes não, brilhamos, decepcionamos, mas será sempre da sorte o ponto final. (Martha Medeiros)
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